"E, nos murmúrios do vento, vão-se os meus silêncios"" (Sonya Azevedo)

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Exótica


Exótica, és tu, ah! flor da savana!
Tens nessa pele o sumo da terra.
As cores que te fazem soberana
E a que te pintas para ir à guerra,
Trazes à face.
 
Cabelos com cachos tal lírio-tocha,
Tens, da noite, a cor de sua negritude.
Teus olhos cor de mel, levam a tocha
Da esperança, da jovem inquietude
Ante à morte.
 
Bordas co' o vento, as dunas do deserto!
Reinas imperiosa pelas matas,
Pelos mares e rios, a céu aberto,
Nas cadentes que caem em cascatas
Por teus sonhos.
 
Os teus ouros? São os magníficos poentes!
Teus brilhantes? São os pingos do céu!
Teus planaltos? Ah! e quão imponentes
Eles são! Assim, tuas curvas, teu céu
Descoberto.
 
Encanta-me essa beleza primitiva,
Essa guerreira, as tantas divindades,
A águia que és, que me faz contemplativa,
Que enche este peito de tanta saudade...
Exótica África!

(Sonya Azevedo)


domingo, 30 de julho de 2017

Luar na Mata


Co'o sol posto se inicia o grão coral.
Distinto do coral do amanhecer,
Aves silenciam para conceber
À noite, sua magnitude, seu astral.

Nos brejos, o coaxar da saparia...
Pirilampos querendo disputar
Nas matas co' o douro céu estrelar,
O claror por detrás das serranias.

Tão perfeita tal giro d'um compasso,
Desponta sua majestade celeste
Entre os morros e as ramas d'um cipreste,
E na mudez d'um vento já tão lasso.

Mágica e livre tal um navegante,
Singra majestosa em mar d'estrelas
Perdoa co'o claror as tantas querelas
E une em sonhos e amor, os amantes.

E esplendorosa navega silente
Venerada pelo céu de setembro,
Na pena do poeta e se bem me lembro,
No riso matreiro do Onipotente.

(Sonya Azevedo)



Pena de Passarinho



A poesia me vem tal pena no ar
Bailando em calma que a brisa requer,
Solta da asa de um pássaro qualquer,
Em raras notas de noite sem luar.

Nos chiares das cigarras, a canção
Do choro do sax que em mi’ alma penetra.
Os versos se fazem no toar das letras,
Movidas p’lo pulsar do coração.

Tal o vaivém das ondas do mar ou
Quem sabe, das estrelas, o piscar,
Ela me diz tudo do verbo amar,
Sem importar onde a solidão parou.

Traz-me os verdes olhos da saudade
Que em rasos d’água banham-se em tristeza.
Fala-me também das tantas belezas
Da vida e do que é felicidade.

Leve, tão leve tal o sentir-se em paz,
Uma rajada de brisa a leva,
Voa lenta para que eu a escreva
E, ao ir-se, deixa uma pluma pra trás.

(Sonya Azevedo)
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